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Sobre Tao Qian

Tao Qian nasceu na atual província de Jiangxi, próximo às montanhas Lushan, no leste da China. Entre nós há uma distância de 16 séculos. Ainda assim, me comovo com o que ele descreve no prefácio1 do poema Voltar para casa (405 EC):

Minha casa era pobre, e o que cultivávamos não bastava para nos sustentar. Havia muitas crianças em casa, e a vasilha não guardava nenhuma reserva de cereais. Eu ainda não encontrara um meio de prover o necessário para a vida.

Parentes e velhos amigos me aconselhavam muitas vezes a aceitar um cargo administrativo. A ideia chegou a me atrair, mas eu não tinha como conseguir uma nomeação. Surgiram então assuntos a tratar em diversas regiões, e os governantes locais faziam da benevolência e do cuidado com as pessoas uma virtude. Como eu vivia na pobreza, meu tio paterno me ajudou, e acabei empregado num pequeno distrito.

Naquele tempo, as turbulências ainda não haviam cessado, e eu temia ser enviado para longe. Pengze ficava a apenas cem li de minha casa, e o rendimento dos campos públicos seria suficiente para fazer vinho. Por isso, pedi aquele cargo.

Depois de poucos dias, porém, comecei a sentir saudade e um desejo crescente de voltar. Por quê? Minha natureza é espontânea e não pode ser forçada. A fome e o frio eram prementes, mas contrariar a mim mesmo fazia sofrer todo o meu ser. Nas vezes em que me ocupei dos assuntos do mundo, foi sempre para alimentar boca e ventre que me escravizei.

Senti então grande desgosto e comoção, profundamente envergonhado diante das aspirações que nutrira durante toda a vida. Ainda pretendia esperar uma colheita; depois, recolheria minhas vestes e partiria durante a noite.

Pouco depois, minha irmã, casada na família Cheng, morreu em Wuchang. Meu único impulso era correr para lá, e por conta própria deixei o cargo.

Do segundo mês do outono até o inverno, permaneci no serviço por pouco mais de oitenta dias. Ao deixá-lo, segui enfim meu coração. Escrevi esta peça e lhe dei o título de Voltar para casa.

Décimo primeiro mês do ano yisi — 405.

Por volta de 393, Tao Qian foi Oficial de Cerimônias de Jiangzhou. Permaneceu pouco tempo e pediu demissão. Entre 398 e 401 foi Assessor de Huang Xuan. Em 404 foi membro da administração do General Liu Yu. Em 405, Adjunto do General Liu Jingxuan. Ainda em 405 teve seu último cargo, e também o de maior responsabilidade autônoma: foi nomeado magistrado do Distrito de Pengze, uma espécie de governador.

Passagem de "Voltar para casa" de Tao Qian

▲ Leque com inscrição caligráfica de uma passagem do poema "Voltar para casa" de Tao Qian. Artista: Dong Qichang (1555-1636). Met Museum

Tao Qian escreveu o poema Voltar para casa(归去来兮辞)em 405, quando decidiu abandonar o cargo de magistrado. No prefácio, ele explica as circunstâncias práticas: aceitara o cargo porque era pobre e precisava sustentar a família, mas o trabalho o obrigava a viver contra sua própria natureza. Depois de pouco mais de oitenta dias, deixou a administração e voltou para casa.

O poema descreve esse retorno. Tao atravessa a paisagem, reencontra a casa, os filhos, os parentes, o vinho e o jardim. Há alívio e alegria, mas não apenas isso. Ele também reflete sobre o tempo perdido, a vida agrícola, a passagem das estações e a proximidade da morte. Voltar ao campo não significa dominar a natureza ou alcançar uma existência perfeita, significa deixar de lutar continuamente contra si mesmo.

Depois de deixar o cargo, Tao Qian continuou pobre, enfrentou dificuldades e nem sempre conseguiu sustentar a família com tranquilidade. Voltar para a terra não resolveu todos os seus problemas, apenas eliminou uma forma específica de sofrimento.

Tao não encontrou uma vida sem preço. Encontrou, depois de muitas tentativas, um preço que estava disposto a pagar.


Sobre o assunto, dois livros que estão na minha mira:


Notas:

  1. Tradução minha, diretamente do texto original chinês, com revisão a partir das traduções inglesas de Herbert A. Giles, A. R. Davis e James R. Hightower.↩

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